Nem tudo o que vivemos cabe em métricas.
Os Bastidores é um espaço onde o digital encontra a vida real, e onde a memória também tem lugar.
Aqui escrevo sobre marketing, comportamento e estratégias, mas também sobre lembranças, saudade e tudo aquilo que nos forma silenciosamente ao longo do tempo.
Porque entender o presente também é revisitar o que já fomos.
Quando o Brasil cabia numa sala: memórias da Copa de 1994
No clima de Copa do Mundo, me peguei voltando às minhas
lembranças de 1994.
Para muita gente, aquele foi apenas o ano do tetra. Para
mim, foi um ano que marcou uma geração inteira.
Eu tinha 13 anos e vivia a minha adolescência. Lembro da
minha melhor amiga da escola dizendo que aquela seria a nossa Copa da
adolescência. Parecia que o tempo nunca passaria... e hoje percebo como ele
voou.
As lembranças chegam como um filme, uma cena de cada vez.
Lembro de ir assistir aos jogos na casa da vizinha com minha
mãe e meu irmãozinho (in memoriam). Lá havia uma TV colorida de 29 polegadas,
que reunia todo mundo na sala. Minha mãe sempre se sentava no chão, bem de
frente para a televisão, torcendo com toda a emoção que só uma Copa do Mundo
desperta.
Como esquecer o gol do Branco, o eterno "gol cala a
boca"? Os gols de biquinho do Baixinho Romário, que pareciam simples, mas
eram pura genialidade. A comemoração de Bebeto embalando o filho que encantou o
mundo. E, depois da emoção dos pênaltis, um país inteiro explodiu no
inesquecível grito: É TETRA!
Mas 1994 também foi um ano de saudades e despedidas.
Ainda sinto a tristeza que tomou conta do país com a partida
de Ayrton Senna. Parecia impossível imaginar o Brasil sem aquele herói das
manhãs de domingo. Pouco tempo depois, veio o Plano Real, trazendo uma nova
esperança para milhões de brasileiros. E, como se o país precisasse respirar
novamente, a conquista do tetra devolveu ao nosso povo um orgulho difícil de
explicar.
Hoje percebo que a saudade não é apenas daquela Copa.
É da simplicidade da vida. Das famílias reunidas para
torcer. Da vizinhança dividindo a mesma televisão. Da minha mãe vibrando
sentada no chão da sala. Do meu irmão ao meu lado. Dos amigos da escola. De um
tempo em que o Brasil parecia caber dentro de uma sala, reunido pela mesma
torcida e pela mesma esperança.
A Copa passa. Os anos passam.
Mas algumas lembranças permanecem vivas para sempre.
Hoje, alguns dos que viveram aquele momento comigo já não
estão mais aqui. Ainda assim, enquanto a memória existir, eles continuarão
comemorando cada gol dentro do meu coração.
E toda vez que ouço alguém gritar "É TETRA!",
volto, por alguns instantes, para aquele julho de 1994. Um inverno brasileiro
que, de frio, não tinha nada.
Fecho os olhos e ainda consigo ver minha mãe sentada no
chão, meu irmão ao meu lado, uma TV de 29 polegadas reunindo sonhos, uma
vizinhança inteira torcendo e um país acreditando junto.
Talvez seja isso que a saudade faça: ela não muda o passado.
Apenas nos permite visitá-lo de vez em quando.


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